O mercado de smartphones é um esporte sangrento. Durante anos, assistimos a uma consolidação brutal do poder. Apple e Samsung não competiram apenas; eles engoliram o resto da indústria. Mas antes de cimentarem o seu duopólio, havia um cemitério de dispositivos ambiciosos. Não foram apenas fracassos. Eram histórias de advertência sobre o que acontece quando hardware, software e tempo colidem no momento errado.

O sucesso no mobile exige uma trifeta: um produto que as pessoas desejam, um marketing que as faça acreditar nele e sorte. A maioria das empresas nesta lista não tinha pelo menos um, muitas vezes todos os três. Eles aprenderam rapidamente. Alguns nunca mais tentaram.

The BlackBerry Storm: uma tragédia na tela sensível ao toque

O BlackBerry fez isso. Eles eram donos do mercado empresarial antes mesmo de iOS ou Android terem um nome. Seus dispositivos eram tanques utilitários. Teclados físicos. Integração de e-mail dedicada. Sem frescuras.

Então, o iPhone chegou. De repente, as telas sensíveis ao toque eram sexy. BlackBerry entrou em pânico. Eles precisavam girar. Então, eles criaram o BlackBerry Storm.

O marketing chamou isso de “assassino do iPhone”. Olhando para trás, isso parece uma piada. O Storm não tinha uma tela sensível ao toque verdadeiramente capacitiva. Ele tinha uma tela resistiva que deprimia fisicamente quando você tocava nele. Ele clicou. Ruidosamente. Cada pressionamento de tecla parecia apertar um botão em uma calculadora barata.

O software foi outro desastre. Ele foi construído para canetas e teclas físicas, não para dedos. Os gestos demoraram. A interface era desajeitada. Apesar de um impulso de marketing agressivo que convenceu os primeiros usuários a dar o salto, a realidade do uso do dispositivo era miserável. Os retornos dispararam. As vendas evaporaram.

O BlackBerry tentou consertar isso com o Storm 2. Foi melhor. Mas o estrago estava feito. A marca havia perdido a aura de inovação.

Sony Ericsson Xperia PLAY: O telefone para jogos que se esqueceu de ser um telefone

A Sony Ericsson viu uma lacuna. Os jogadores queriam portabilidade. Eles queriam jogar títulos clássicos do PlayStation em qualquer lugar. Então eles construíram o Xperia PLAY.

Era essencialmente um telefone deslizante com um direcional e botões de ação deslizando na parte inferior. Foi comercializado como “O PlayStation Phone”.

A ideia era boa. A execução estava incompleta. O hardware era fraco. Ele não suportava jogos 3D modernos e a biblioteca de títulos otimizados para PS1, PS2 e PSP era escassa. Enquanto isso, jogos como Angry Birds provavam que uma mecânica simples e otimizada para toque poderia dominar os mercados casuais.

O Xperia PLAY travou em versões mais antigas do Android. Ele nunca foi atualizado para o Android 4.0 Ice Cream Sandwich. Nos anos de tecnologia, isso é uma eternidade. O telefone tornou-se obsoleto antes de ser realmente lançado. Tentou ser um console e um telefone. Acabou sendo uma versão medíocre de ambos.

Amazon Fire Phone: US$ 170 milhões em truques

Por que a Amazon, uma gigante do comércio eletrônico, decidiu construir um telefone? Eles tinham Kindle. Fogo TV. Eco. Eles eram donos da sala de estar digital.

O Fire Phone foi a resposta deles. Estreou em 2014 com um artifício que definiu toda a sua existência: efeitos de profundidade 3D. O telefone tinha quatro câmeras voltadas para fora para rastrear seu rosto e criar um efeito de paralaxe na interface do usuário.

Foi uma engenharia impressionante. Também foi inútil.

O verdadeiro assassino não foi o artifício. Foi o ecossistema. O Fire OS da Amazon é um fork do Android. Não tem acesso à Google Play Store. Sem o Google Maps, o Gmail ou o conjunto completo de serviços do Google, o telefone ficou isolado. Os desenvolvedores não priorizaram isso. Os usuários não conseguiam instalar os aplicativos dos quais dependiam diariamente.

Você pode ter a melhor tela do mundo, mas se não consegue enviar um e-mail ou consultar um mapa, você não tem um smartphone. Você tem um tijolo com uma tela.

A Amazon supostamente perdeu mais de US$ 170 milhões no projeto. Eles desligaram em 2015. A divisão foi dissolvida. Continua sendo a única tentativa de um dispositivo móvel independente.

Nokia N-Gage: O telefone que parecia um taco

Antes da guerra dos smartphones, a Nokia era intocável. Eles fizeram telefones flip. Telefones em barra de chocolate. Eles dominaram globalmente.

Mas eles viram a ascensão do Game Boy e do iPod. Eles queriam combinar a comunicação móvel com o entretenimento portátil.

O resultado foi o N-Gage, lançado em 2003. O design era bizarro. Para fazer uma ligação, era preciso segurar o aparelho horizontalmente como um sanduíche, cobrindo metade do rosto com o telefone. Foi desconfortável. Foi estranho.

Não era muito melhor como dispositivo de jogo. A biblioteca era escassa. Os controles eram apertados. Os consumidores não queriam um telefone que jogasse; eles queriam um telefone que fosse um telefone, com jogos como complemento.

A Nokia afirmou ter enviado mais de um milhão de unidades. Os varejistas sabiam melhor. O estoque estava em armazéns. As vendas reais foram insignificantes. Foi um produto à frente do seu tempo, mas aquém das expectativas do mercado.

Palm Pre: Bom software, hardware ruim

Nem todo fracasso se deve a más ideias. Às vezes é apenas uma má qualidade de construção.

O Palm Pre foi lançado em 2009. Ele rodava WebOS, um sistema operacional baseado em Linux que era genuinamente inovador. Ele introduziu a multitarefa baseada em cartão. Você pode deslizar entre aplicativos abertos instantaneamente. Foi fluido. Foi intuitivo. Mais tarde, Apple e Google adotariam conceitos semelhantes.

No papel, o Pré foi vencedor. Na mão, foi uma decepção.

A caixa de plástico parecia barata. O mecanismo deslizante do teclado QWERTY desenvolveu oscilação após uso mínimo. Os botões liga/desliga falharam. As tomadas de fone de ouvido ficaram soltas. O software era brilhante, mas o hardware não suportava a promessa.

A Palm não tinha uma loja de aplicativos importante. Eles não podiam competir com o poder crescente da App Store ou do Android Market. O Pre era adorado pelos geeks por sua interface, mas apresentava falhas em sua construção.

Quando a HP adquiriu a Palm, eles a mataram. O potencial estava lá. A execução não foi.

Por que o Nokia Lumia não conseguiu conquistar o mercado móvel

A história da Microsoft com hardware móvel é um estudo de fracassos repetidos. A empresa dominou a era dos PCs, mas traduzir esse poder para dispositivos portáteis foi um desastre. Veja o caso da série Nokia Lumia, lançada em 2011. Mais tarde, a Microsoft os rebatizou como Microsoft Lumias, mas o estrago estava feito. Esses foram os primeiros dispositivos a rodar a interface “Metro” em blocos (mais tarde Windows Phone 8/10), uma linguagem de design que a Microsoft esperava unificar o Xbox, o Windows 10 e o mobile. Os grandes azulejos eram icônicos, com certeza. Mas o ecossistema abaixo deles era vazio.

O problema não era a aparência. Foi a falta de aplicativos. Enquanto o iOS e o Android inundavam suas lojas com tudo, do Snapchat ao Evernote, a Microsoft Store permanecia praticamente vazia. Se você tentou usar o Gmail ou o Google Drive, estava lutando contra a pressão da própria Microsoft para colocá-lo no Outlook e no OneDrive. A integração foi desajeitada. O sistema operacional baseado em blocos simplesmente não se adaptava bem à realidade da tela pequena de um smartphone. A Microsoft continuou tentando forçar o pino quadrado no buraco redondo. Eles ainda lutam neste mercado hoje.

O sonho do telefone modular: Projeto Ara e além

Lembra do vídeo viral “Phonebloks” de anos atrás? Ele apresentou uma ideia radical: um telefone que você poderia construir como um PC. Componentes modulares. Troque a câmera por uma melhor. Coloque um enorme módulo de bateria se você viaja com frequência. Troque um fone de ouvido por armazenamento extra. A lógica era sólida. A execução não foi.

A Motorola (então propriedade do Google) tentou tornar isso real com o Projeto Ara em 2013. O marketing mostrou blocos semelhantes a Lego se encaixando no lugar. Na realidade, os obstáculos de engenharia eram enormes. A dissipação de calor, a integridade estrutural e a durabilidade do conector tornaram o sonho impossível na escala desejada pelos consumidores. A LG se aproximou do G5, oferecendo acessórios deslizantes na parte inferior do telefone. O conceito parecia legal. O mercado não se importou. As pessoas compram telefones pela confiabilidade e pela espessura, não por um hobby de hardware DIY. O movimento modular do telefone estagnou, deixando-nos com placas de vidro e metal que, de qualquer forma, substituímos a cada dois anos.

The Microsoft Kin: um erro de mídia social

É estranho que a mesma empresa por trás do Xbox e do Windows PC não tenha conseguido decifrar o código do telefone. Muito antes da era Lumia, a Microsoft experimentou o Kin em 2010. Era um dispositivo de teclado deslizante voltado diretamente para o grupo demográfico “nativo da mídia social” – principalmente adolescentes.

O Kin carecia de aplicativos tradicionais. Foi um ciclo fechado para Facebook, Twitter e MySpace. A premissa era simples: facilitar o compartilhamento social. O preço, no entanto, era alto demais para o que equivalia a um painel social glorificado. Os consumidores não queriam pagar preços premium por um dispositivo com funcionalidade limitada. As vendas foram péssimas. A Microsoft vendeu cerca de 500 unidades antes de encerrar a linha de produtos apenas seis semanas após o lançamento. Foi uma saída rápida para um fracasso rápido.

LG Double Play: um experimento volumoso de tela dupla

Antes de as telas dobráveis se tornarem realidade, os fabricantes tentavam colocar dois monitores em um só corpo. A lógica veio de consoles de jogos portáteis como o Nintendo DS, mas aplicada a smartphones. O LG Double Play é o garoto-propaganda dessa má ideia.

A LG colocou uma segunda tela no meio de um teclado físico deslizante. Para acessar a tela secundária, você teve que separar fisicamente o telefone. Digitar tornou-se um exercício frustrante de alavancagem e desalinhamento. O hardware extra tornou o dispositivo volumoso – os críticos o chamaram, com razão, de “tijolo”. Mais importante ainda, as telas destroem a bateria. Duas telas significavam que a bateria descarregava incrivelmente rápido, mesmo com uso leve. Era muito pesado, muito complexo e com muita sede de poder. As empresas de tecnologia abandonaram sabiamente o formato físico de tela dupla logo depois.

HTC First: tentativa de hardware de curta duração do Facebook

O Facebook cresceu tão rápido que surgiram rumores de que fabricaria seu próprio hardware. Em 2013, eles fizeram parceria com a HTC para lançar o HTC First, apelidado de “Facebook Phone”. O dispositivo foi projetado para tornar o Facebook o sistema operacional principal. A tela inicial era dominada por seu feed, mensagens e atualizações.

Na prática, era apenas uma versão fortemente skin do Android. A ideia de que os usuários queriam toda a sua experiência telefônica agrupada em uma única rede social não ressoou. As preocupações com a privacidade já estavam aumentando e as pessoas preferiam ter o Facebook como um aplicativo entre muitos, e não como base de seus dispositivos. A resposta do mercado foi brutal. O preço caiu de US$ 99 com contrato para apenas US$ 0,99 em um mês. A HTC abandonou o projeto um ano depois. Provou que não é possível forçar uma rede social ao hardware se os usuários não quiserem que toda a sua vida digital seja ditada por anúncios e algoritmos.

Por que o Asus PadFone não conseguiu substituir seu smartphone

A piada inicial da Internet sobre o iPad ser um “iPod Touch enorme sem chamadas” parecia engraçada até que centenas de milhões de pessoas o compraram de qualquer maneira. A Apple provou que um tablet dedicado tinha valor. A Asus não entendeu esse memorando.

Eles lançaram o Asus PadFone com uma premissa diferente: por que carregar dois dispositivos quando você pode encaixar um smartphone no chassi de um tablet? A tela de 10,1 polegadas transformou seu telefone em uma experiência de computação maior. Ele ainda veio com um teclado anexo para quem queria digitar sem olhar para um teclado minúsculo.

No papel, melhorou a vida útil e a funcionalidade da bateria. Na realidade, o hardware não resolveu o problema central. Você não pode entregar o complemento do tablet a uma criança enquanto tenta twittar. Os dispositivos estão fisicamente conectados. Se precisar de duas telas, você compra dois dispositivos.

As pessoas estavam migrando para as lojas de iPads porque não queriam comprometer os recursos do telefone ou do tablet. Eles não queriam a bagunça híbrida.

A Asus tentou consertar a fórmula. Eles lançaram o PadFone 2. Depois o PadFone Infinity. Depois o PadFone X.

Nunca vimos um desses na natureza. Não nas casas. Não em escritórios. Nem mesmo nos mercados secundários. Continua a ser o fantasma de uma ideia que os consumidores rejeitaram firmemente.

O Motorola Rokr e o nascimento do iPhone

Antes de a Apple entrar no mercado de telefonia, Steve Jobs deu uma olhada no Motorola Razr. Foi o rei da era dos dumbphones. Magro. À moda. Em todos os lugares.

Jobs também viu o iPod dominar o espaço dos tocadores de MP3. O iTunes estava se tornando uma força cultural. A lógica era simples: combinar os dois.

O resultado foi o Motorola Rokr.

Era uma versão atualizada do Razr que não dobrava. O nome em si foi um desastre de marketing desde o início. O software estava com bugs. A interface confundiu os usuários que queriam apenas acessar sua biblioteca de músicas.

A maior limitação? Você só poderia armazenar 100 músicas.

Jobs o apresentou em uma grande conferência. Suas lendárias habilidades de apresentação não puderam salvá-lo. O dispositivo falhou miseravelmente.

Há uma fresta de esperança nesse fracasso. A parceria com a Motorola deixou a Apple cansada. Eles perceberam que depender de outros fabricantes de hardware seria um beco sem saída.

Eles decidiram construir seu próprio dispositivo.

O fracasso do Rokr levou diretamente ao desenvolvimento do iPhone. Sem esse experimento desajeitado de 100 músicas, talvez não teríamos o cenário dos smartphones que conhecemos hoje. Foi uma lição cara que valeu a pena para a Apple, mesmo que a Motorola tenha perdido o controle.

O Samsung Galaxy Beam: um projetor que ninguém precisava

Muito antes de o Galaxy Note 7 se tornar famoso por pegar fogo, a Samsung tentou nos vender um tipo diferente de risco de hardware.

Em 2012, eles lançaram o Galaxy Beam.

O truque era um miniprojetor embutido. Você pode transmitir fotos ou jogos em uma parede ou porta de garagem. Parecia um truque de festa legal. Os comerciais mostravam pessoas sorrindo diante de projeções granuladas e mal iluminadas.

A vida real não combinava com o anúncio.

O projetor estava escuro. A resolução era baixa. O preço era alto. E a versão do Android em que rodava já estava obsoleta quando chegou às lojas.

A maioria das pessoas olhou para o recurso e fez uma pergunta: “Quando vou usar isso?”

A resposta é nunca.

Os consumidores não foram vendidos. As vendas foram fracas. O truque não se traduziu em utilidade.

Mas a Samsung não abandonou totalmente a ideia. Eles lançaram um segundo modelo Beam em 2014.

Desta vez, eles visaram o mercado chinês. Eles retiraram-no inteiramente das prateleiras norte-americanas.

É um lembrete de que a inovação nem sempre persiste. Às vezes, ele simplesmente acumula poeira em uma prateleira ou, pior, desaparece antes mesmo de chegar.